L E T R A D O S em prosa e verso


10.12.08


PUDOR

Certas palavras nos dão a impressão de que voam, ao saírem da boca. "Sílfide", por exemplo. É dizer "Sílfide" e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com o que a palavra significa. "Sílfide", eu sei, é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa diáfana, leve, borboleteante. Mas experimente dizer "silfo". Não voou, certo? Ao contrário da sua mulher, "silfo" não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. "Silfo", zupt, plof. A própria palavra "borboleta" não voa, ou voa mal. Bate as asas, tenta se manter aérea mas choca-se contra a parede. Sempre achei que a palavra mais bonita da língua portuguesa é "sobrancelha". Esta não voa mas paira no ar, como a neblina das manhãs até ser desmanchada pelo sol. Já a terrível palavra "seborréia" escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete.

Luís Fernando Veríssimo

Numa dessas feiras de livro encontrei "Comédias para se Ler na Escola" de Verríssimo. Numa seleção ótima de Ana Maria Machado e que eu recomenda. Dei muitas risadas com as crônicas. Para ler na íntegra esse texto acesse : http://ciberduvidas.sapo.pt/antologia.php?rid=765

Escrito por M@rciº às 17h59
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