Chovia naquela noite. Meu Deus como chovia. Os trovões era a voz do próprio Deus. Os raios transformavam a noite em dia. Clarões intermitentes que apavoravam. Molly latia assustada, estava com medo. Eu estava com medo. Um ar sombrio, propício para um acerto de contas.
Parada à porta da sala, olhava fixamente para o portão. Queria disfarçar a ansiedade mas estava só e queria vê-lo, apesar de tudo. Por várias vezes dizia que não queria. E não queria mesmo. Mas alguém me dizia que era preciso. E ultimamente tem sempre alguém me dizendo alguma coisa. Herdei de você essa mania de dizer que ouço vozes, que não adianta mentir, sempre fico sabendo. Uma espécie de mediunidade bem fofoqueira, que as vezes se manifesta em amigos que temos em comum. Curioso isso não. Foi assim que soube das vezes que você me traía. E não foram poucas.
Mas chove na cidade e minha raiva vai se esvaindo como água da chuva que escorre pelo portão. Meu Deus! A chuva. Ele vai se molhar todo. Com certeza está sem guarda-chuva. Nunca saiu de casa com ele. Aliás, tava sempre esquecendo alguma coisa. Essa hora deve ta todo encharcado. A roupa colando ...aquela calça jeans apertada..fazendo aquele volume todo.... Sua blusa colada no peito, definindo seus músculos...que saudade daquele peito...e seus pêlos...nossa acabei me molhando.
Não resisti e fui ao seu encontro. Propositalmente levei apenas um guarda-chuva. A cada passo, meu peito batia mais depressa. Pensei que isso já teria acabado, mas naquele momento tive certeza do que ainda sinto. Mas parei. Preciso ser forte. Que isso? Pareço uma idiota. Ele não merece meus cuidados, minha preocupação. Isso é que não. Foi aí que começou a doer novamente. Se não fosse isso talvez eu teria ido ao seu encontro. Voltei. Dessa vez tem que ser diferente. Quem manda magoar um coração apaixonado. Tomara que um raio caia na sua cabeça! Não, raio já é de mais também. Afinal todo mundo merece uma chance. Rezei com toda minha fé para que ele chegasse inteiro. Sempre fui boba mesma. Sempre acreditei que as pessoas podem mudar. A utopia de um mundo melhor, sem amores canalhas e mulheres sofridas.
Ele vem! E vou tê-lo nos braços novamente. Isso é que importa. Toda ansiedade do mundo lhe invadia. Caminhou até a cozinha. Preciso preparar alguma coisa. Ao certo está com fome. Ainda lembro do seu prato favorito. E fica pronto num instante. Ainda tem aquele vinho meu amor. Aquele que você adora. E esse tempo pede vinho. Quando bebíamos esquentava tudo. Pegava fogo mesmo. Eu já sabia que ia ter vários orgasmos. Você se transformava. Era de uma virilidade de impressionar. Demorava a gozar e ficava dentro de mim por horas. Claro, toda palavra é exagero. Mas era a combinação perfeita para hoje.
Ela não sabia se devia perdoar, mas sentia que ainda o ama. A felicidade estava voltando. Seu coração se enchia de esperança. Sentou no sofá, sintonizou o rádio e adormeceu.
Fernando nunca voltou.